terça-feira, 3 de agosto de 2010

Contos de Morte Morrida

O titulo desta postagem lhe chamou a atenção? Pois é, foi o mesmo que aconteceu comigo outro dia na biblioteca da minha faculdade. A intenção inicial era a pesquisa de um trabalho que tinha que fazer, mas como os livros que procurava para esclarecer dúvidas estavam cada vez mais me confundindo (coisa que acontece com a maioria dos livros da chamada "linguagem acadêmica"), passando por uma das prateleiras esse titulo também me chamou a atenção. Peguei o livro e comecei a ler, e não me arrependi. É um ótimo livro. Apesar de ser classificado como infantil, a leitura do livro por adultos não causa nenhum dano, pois já testei. Aliás só faz bem, além de rir você conhece um pouco mais sobre essa senhora tão misteriosa, a Morte.

O livro é do autor Ernani Ssó e conta nove histórias do folclore cheias de humor e movimento e em mais uma, nova, na qual o autor conta como combinou com a Morte o prazo para escrever o livro. Vou apresentar aqui no blog algumas das histórias. Eis aí a primeira


A Morte e o Ferreiro

Há muito tempo, quando os bichos falavam e o sol tinha fases como a Lua, dois reinos vizinhos entraram em guerra. Foram tantas as batalhas que a Morte quase se cansou de trabalhar. Levava gente da manhã à noite, mesmo aos domingos. Quando tudo terminou, sete anos depois, a gadanha dela tinha perdido o fio e quebrado a ponta.
Então a Morte procurou um ferreiro, numa pequena aldeia, perto do último campo de batalha. Ele era um homem valente, não se assustou ao ver a Morte parada na porta.
-Já chegou a minha hora?
-Não. Preciso dos seus serviços.
A Morte mostrou a gadanha.
-Precisa de uma lâmina nova-o ferreiro disse. -Vai demorar um pouco. Melhor a senhora se sentar.
-Eu nunca sento - a Morte respondeu.
Entregou a gadanha e ficou num canto, confundida com as sombras.
O ferreiro segurou a gadanha, sentiu o peso dela e disse:
-Parece uma gadanha comum.
-É uma gadanha comum, na mão dos outros - a Morte disse.
O ferreiro trabalhou a noite toda. Pela madrugada, a gadanha tinha uma lâmina nova. Chegava a brilhar de tão afiada e pontuda.
A Morte saiu das sombras, pegou a gadanha, examinou-a.
-Ficou muito boa, ferreiro. Quanto lhe devo?
-Nada
-Então, obrigada. Até outro dia.
-Espere aí. Quero um favor em troca.
A Morte esperou.
-Quero que a senhora me avise com antecedência. Para eu me preparar pra minha hora.
-Avisarei - ela disse sem nem virar, e sumiu na rua.
Anos e anos se passaram. O ferreiro nunca mais teve notícia da Morte.
Na verdade até esqueceu dela.
Uma noite, voltando pra casa, viu um brilho branco nas sombras. Eram os dentes da Morte sob o capuz preto. O ferreiro disse:
-Tudo bem? Veio me avisar?
-Não. Vim buscá-lo.
-Mas como?! A senhora prometeu que ia me avisar com antecedência.
-Eu avisei.
-Não recebi aviso nenhum.
-Seus cabelos ficaram brancos?
-Ficaram.
-Seu rosto se encheu de rugas?
-Sim.
-Suas pernas ficaram fracas?
-Ficaram. Estou até usando bengala.
-Suas costas encurvaram?
-Encurvaram.
-Então, ferreiro? Quantos avisos mais você queria?
-Mas velho assim eu posso morrer com oitenta anos, com cem ou cento e vinte. Um aviso desses não me serve.
Quero hora com lugar certos.
-Está bem. Dentro de sete dias, aqui no jardim - a Morte disse e sumiu.
O ferreiro ficou quieto, pensando. Sete dias não era muito. Precisava se apressar.
Mas o ferreiro não se apressou. Nesses sete dias, fez o que sempre fazia, do jeito que sempre fazia. Apenas passou mais tempo com os netos, contando histórias.
Quando o prazo se encerrou, ele estava no jardim, à espera da Morte.
Ele não disse nada. Ela também não disse nada.
Foram andando juntos como velhos amigos.

2 comentários:

  1. Ótima dica! Dá até vontade de ler mais... Vou procurar esse livro! =D

    ps.: Mel, com preguiça de fazer o login...

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  2. este livro e emocionante eu adorei



    victoria gilles de mello

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